18 de dezembro de 2007

Bali, uma chance desperdiçada...

Representantes de 190 nações reunidos em Bali, na Indonésia, deixaram passar, no fim de semana, uma chance de ouro para deter de vez a deterioração do planeta. Pressionados pelos Estados Unidos - que se negavam a aceitar qualquer meta quantificável de redução de emissão de gases nocivos - os participantes da conferência sobre o clima chegaram apenas a uma carta de boas intenções, muito longe do novo protocolo que se esperava de tal cúpula. O texto consensual exclui qualquer referência a níveis, margens ou prazos de redução de gases do efeito estufa. E transfere para futuras reuniões a responsabilidade de esquematizar um verdadeiro acordo climático global, baseado em números.

Enquanto isso, a Terra pede socorro. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, divulgado em novembro, já alertava: a Amazônia está sufocando e parte da floresta corre o risco de se transformar num imenso cerrado. O documento assinado por pesquisadores de várias nações - incluindo brasileiros - informava que a temperatura do planeta está subindo mais rápido do que o previsto. Onze dos últimos 12 anos figuram entre os mais quentes desde que a medição começou a ser feita, em 1850. O nível dos oceanos subiu 1,8 milímetro ao ano desde 1961, e a partir de 1993 o ritmo passou a 3,1 milímetros por ano. As calotas polares e as geleiras vêm derretendo mais rapidamente. As tempestades tornaram-se mais fortes e freqüentes. O relatório confirmou que as causas da reviravolta climática são humanas.

A emissão de gases que provocam o efeito estufa aumentou 70% desde 1970. A principal fonte é a queima de combustíveis fósseis - ou seja, o vilão é o petróleo, que alimenta a riqueza e o bem-estar das nações desenvolvidas e sustenta o crescimento econômico de 10 entre 10 países em desenvolvimento. Nas próximas duas décadas, a temperatura tende a manter a elevação média de 0,2ºC por ano.

Diante de previsões tão aterradoras, esperava-se que a conferência de Bali se traduzisse num grande acordo mundial que suavizasse os impactos das alterações climáticas já percebidas. Os maiores poluidores da Terra, contudo, foram incapazes de compreender que o esforço dos países ricos tem de ser maior que o das nações mais pobres. Justamente em função dessa assimetria, é necessário que os mais desenvolvidos transfiram tecnologia e recursos aos que ainda buscam sair das dificuldades impostas pela miséria. É a noção de que há responsabilidades comuns, porém diferenciadas.

Mudanças efetivas no modelo de desenvolvimento a que se está acostumado, porém, custam caro - alegam os grandes poluidores, esquecendo-se de que o preço cobrado pela natureza será muito mais alto quando o nível do mar já tiver subido 1 metro, e cidades inteiras submergirem. Em verdade, o custo para reverter processos em andamento - como a desertificação do sertão nordestino e o desaparecimento de parte da floresta amazônica - não é tão elevado. Acabará sendo compensado, em parte, com a redução de gastos do sistema de saúde com o tratamento das doenças provocadas pela poluição do ar.

O Brasil, dono de fontes "limpas" de energia (hidrelétrica e nuclear) e de um bem-sucedido programa de biocombustível (carros a álcool e flex são uma realidade nas ruas) deve, doravante, elevar a voz nas conversações de alto nível. Sem descuidar, no entanto, do calcanhar-de-aquiles nacional: o desmatamento. Nos últimos três anos, com o aumento da capacidade do poder público em monitorar as matas em tempo real, o país reduziu o nível de derrubada de florestas de 27 mil km² anuais para 11 mil km². Ainda é pouco. Se quiser mesmo assumir o protagonismo nas negociações sobre o clima, o governo brasileiro terá de convencer o mundo (a começar pelo empresariado local) de que uma floresta "em pé" vale mais que a derrubada. Uma equação difícil no atual modelo econômico, mas cuja solução deve ser procurada desde já.

Fonte: Jornal do Brasil

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